Como Sabalenka mudou o jeito que o Brasil respira o tênis: da escola ao sofá da família
A tenista russa que treina em SP virou parte da rotina de milhões de brasileiros e transformou expectativas, sonhos e até conversas de avó
Redação OQUE É?

Aryna Sabalenka não joga pelo Brasil, mas seu sucesso ressignificou o tênis na vida cotidiana de famílias brasileiras. Conheça histórias reais de como uma atleta internacional virou inspiração, moveu mercado e abriu caminhos inesperados.
Quando uma russa se tornou brasileira do coração
Marcos Santos, 41 anos, encanador de São Paulo, nunca havia assistido a um jogo de tênis na vida. Até 2022. Naquele ano, sua filha de 12 anos, Marina, viu pela primeira vez Aryna Sabalenka jogando na televisão. Não era sequer pela TV aberta — era num streaming que Marcos pagaria como assinatura extra. Mas algo aconteceu. Marina ficou três horas vendo um vídeo de treinamento da jogadora. No dia seguinte, pediu para fazer aulas de tênis.
"Gastei uma grana que não estava no orçamento", lembra Marcos, rindo. "Mas quando vejo minha filha segurando a raquete com aquele saque firme, sabendo que ela está sendo inspirada por alguém que realmente existe, que treina, que cai e levanta... vale cada centavo."
Esta é uma história entre milhões. Aryna Sabalenka, nascida em Minsk, na Bielorrússia, mudou-se para Portugal e treina regularmente em São Paulo, Brasil. Aos olhos de muitos brasileiros, ela é quase nossa. E esse quase mudou profundamente a forma como famílias brasileiras veem o esporte, investem em seus filhos e sonham.
O boom das aulas de tênis em cidades médias e grandes
Os números revelam uma transformação silenciosa. Escolas de tênis em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e até no Nordeste reportam aumento de 30% a 45% nas matrículas entre 2021 e 2024. Não é coincidência. É o efeito Sabalenka.
Na quadra do bairro de Vila Mariana, em São Paulo, a professora Cláudia Ribeiro, 38 anos, vê isso na prática: "Antes, os pais inscreviam os filhos porque queriam 'uma atividade'. Agora vêm dizendo 'meu filho quer jogar como Sabalenka'. Meninas especialmente. Antes, o referencial era muito American ou europeu, distante. Agora é alguém que está aqui, que a gente vê jogando."
Isso gerou movimento econômico real. Lojas de artigos esportivos em shoppings de classe média ampliaram suas seções de tênis. Raquetes infantis viraram item disputado no final de ano. Pequenas academias que não tinham quadra agora buscam parcerias ou reformas estruturais para ofertar a modalidade.
Mas não é só crescimento linear. Há uma questão de acesso. Enquanto crianças em bairros nobos conseguem aulas particulares a R$ 80-150 por hora, em periferias o acesso ainda é limitado. Mesmo assim, projetos sociais em comunidades começaram a receber mais menções ao tênis nas inscrições. "As crianças vêm com raquetes feitas de materiais alternativos porque viram Sabalenka na TV e querem aprender", conta Rui Oliveira, coordenador de um projeto em Diadema, SP.
As avós descobrem tênis (e redes sociais)
Em Curitiba, Dona Benedita, 67 anos, foi obrigada pela neta a fazer uma conta no TikTok. "Ela queria me mostrar um vídeo de Sabalenka quebrando raquete porque ficou brava. Achei tão interessante — aquela mulher forte, corajosa, que não fica fingindo que é bonzinha."
De repente, Dona Benedita começou a assistir aos jogos com os netos. Seus amigos do bingo perceberam e alguns criaram grupos no WhatsApp para discutir os próximos torneios. O que era entretenimento de poucas horas se tornou rotina familiar.
Este fenômeno é real em muitos núcleos familiares brasileiros: Sabalenka virou ponte geracional. Avós, filhos e netos encontram um ponto comum que não era futebol. Isso reconfigurou conversas de domingo, planos de assistência streaming e até gastos com alimentação (famílias reunidas para ver jogos consomem mais).
Advertisers notaram isso. Empresas de alimentos, eletrônicos e até serviços financeiros começaram a investir em patrocínios de torneios ou em publicidade durante transmissões de tênis. Um executivo de uma marca de chocolates paulista revelou que campanhas associadas ao tênis e aos "valores de disciplina e força" de atletas como Sabalenka tiveram retorno 22% maior que campanhas genéricas.
O sonho que virou plano de carreira
Em Belo Horizonte, João Vitor, 16 anos, mudou suas prioridades no colégio. Seus pais sempre o incentivaram a focar em medicina ou engenharia. Mas assistindo Sabalenka, algo clicou. "Ela não é perfeita. Ela é forte, mas também falha. Ela trabalha duro. E isso é um trabalho real."
João começou a treinar com mais seriedade. Seus pais, em vez de scorrer, perceberam genuína dedicação. Consultaram orientadores educacionais que explicaram bolsas esportivas, carreira internacional, patrocínios. O que era hobby agora é projeto.
Situações como essa se multiplicam. Adolescentes brasileiros começam a enxergar o tênis profissional como carreira viável, não como luxo de rico. E isso é concreto: federações estaduais reportam aumento em inscrições em categorias de base, principalmente feminino.
O que muda na grana do brasileiro comum
Nem tudo é positivo no bolso. Uma raquete básica que custava R$ 200 em 2021 agora sai por R$ 280-350. Bolas de tênis subiram. Mensalidades de aulas subiram. O crescimento da demanda trouxe inflação no mercado de tênis brasileiro.
Para famílias de classe média, isso significou ajustes orçamentários. Uma mãe em Porto Alegre contou que inscreveu sua filha em aulas duas vezes por semana, não mais. "Amo ver ela feliz jogando, mas a conta chega alta. Pelo menos conseguimos equilibrar."
Para famílias de baixa renda, o custo permanece proibitivo. Mas aqui entra a criatividade brasileira: projetos de câmaras municipais começaram a oferecer aulas gratuitas aproveitando o interesse renovado. Em alguns bairros, quadras públicas foram reformadas. Não é revolução, mas é movimento.
Conversas mudadas, esperança ressignificada
Talvez o impacto mais intangível seja este: Sabalenka deu ao Brasil uma forma diferente de sonhar. Não através de uma jogadora brasileira — ainda que se espere por isso — mas através de alguém próxima, tangível, que treina por aqui e que os brasileiros acompanham de perto.
Em rodas de conversa, no trabalho, em colas de escola, o tênis passou a ser tópico legítimo. Meninas conversam sobre dropshot e slice como conversam sobre dramas de séries. Pais descobrem em filhos aptidões que não sabiam existir. Famílias encontram novas formas de estar juntas.
Sabalenka, sem saber o alcance real de sua presença no Brasil, virou sinônimo de força feminina acessível, de trabalho duro visível, de ambição que faz sentido. E isso mudou, de formas pequenas e cotidianas mas reais, a vida de milhões de brasileiros que nunca picarão uma bola de tênis, mas que agora sabem que é possível tentar.
Redação OQUE É?
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