156 mil alunos de São Paulo sofrem com crise de gestão: como a controvérsia de René Belmonte afeta o dia a dia nas escolas públicas
Plataformas educacionais paralisadas, professores com trabalho duplicado e famílias sem acesso a ferramentas de aprendizado. A investigação contra o gestor deixa marcas reais nas periferias
Redação OQUE É?

A investigação contra René Belmonte congela R$ 127 milhões em contratos educacionais, deixando 156 mil alunos de São Paulo sem acesso a plataformas de aprendizado. Nas periferias, onde 58% das famílias não têm banda larga, o impacto é ainda mais devastador.
Quando a tecnologia desaparece da sala de aula
Mariana Silva tem 14 anos, estuda na Escola Estadual Doutor Alfeu Moreira em Guarulhos e, desde junho de 2024, vive uma realidade que a maioria dos alunos de escolas privadas não compreenderia. A plataforma de ensino remoto que ela usava desapareceu. Não do dia para a noite, mas de forma lenta e frustrante, com aulas incompletas, atividades não carregadas e professores pedindo desculpas constantes.
"Minha mãe trabalha o dia todo e não consegue me ajudar nos deveres de casa. A plataforma ajudava porque eu podia revisar a aula de novo, fazer exercício praticamente sozinha", conta Mariana. "Agora, se perco uma aula, fico para trás mesmo."
Mariana é uma das 156 mil pessoas afetadas pelo congelamento de recursos que segue a investigação contra René Belmonte, gestor educacional que administrou uma das maiores regionais da Secretaria de Educação de São Paulo entre 2019 e 2023. O caso, que começou como uma controvérsia administrativa em auditórios de governo, agora toca a vida real de adolescentes em bairros periféricos, professores exaustos e famílias que apostavam na tecnologia como ponte para educação de qualidade.
O problema é concreto: R$ 127 milhões em contratos com empresas de educação digital foram congelados enquanto a Procuradoria-Geral do Estado investiga possíveis irregularidades em dispensa de licitações. Isso significa que três empresas (TechEdu Brasil, SysAdmin Solutions e InnovaClass) tiveram seus pagamentos suspensos, seus serviços degradados, e as escolas ficaram sem as ferramentas que dependiam há quatro anos.
A conta chega nas mãos das professoras
A professora Fernanda Oliveira, 38 anos, leciona matemática há 15 anos na Escola Estadual Itaquaquecetuba, também na região metropolitana coberta pela gestão de Belmonte. Ela descreve a situação com uma mistura de frustração e desgosto.
"Passei três anos aprendendo a usar a plataforma TechEdu. Fiz cursos, assisti tutoriais em casa. Os alunos ficaram engajados porque conseguiam resolver exercícios interativos, receber feedback automático, acompanhar o próprio progresso", relata Fernanda, enquanto folheia um caderno repleto de anotações manuais. "Agora voltei a corrigir 150 provas por semana à mão. Minha vista cansa, meu braço dói, e o feedback que dou é sempre genérico porque fisicamente não tenho tempo de escrever comentários individuais."
O retorno ao método manual não é apenas incômodo—é pedagogicamente regressivo. Estudos da área educacional mostram que feedback automatizado e personalizado melhora a retenção de conteúdo em até 23%. Na escola de Fernanda, alunos com déficit de aprendizado dependeriam exatamente dessa personalização. Agora, como no século passado, todos recebem o mesmo nível de atenção que ela consegue dar manualmente.
E há mais: Fernanda e seus colegas 8.400 professores da região agora lidam com outro peso. Sem o sistema SysAdmin Solutions que administrava frequência, notas e documentos escolares, tudo voltou a ser registrado em planilhas Excel compartilhadas, gerando confusão, erros e horas extras não remuneradas.
"Sexta-feira passada o Excel de um colega corrompeu. Perdemos todo o bimestre de notas de uma turma. Três semanas de trabalho desapareceram", desabafa Fernanda. "Isso demoraliza qualquer um."
A realidade das famílias sem internet
Na zona leste de São Paulo, onde a renda familiar média é inferior a R$ 3 mil e 42% das casas não têm banda larga adequada, o impacto não é apenas pedagógico. É existencial.
Rogério Santos, 42 anos, eletricista, pai de duas filhas na rede estadual em Poá, explica sua situação: "Minha casa tem internet, mas é aquela internet de celular mesmo, sabe? A franquia acaba rápido. Quando a plataforma funcionava, as meninas acessavam de madrugada, quando é mais barato. Agora, muitas atividades exigem acesso que não consigo pagar."
Rogério representa a realidade de milhões. Segundo dados do IBGE, 58% do alunado da região de Belmonte vem de famílias em situação de vulnerabilidade. Para essas crianças, a plataforma educacional não era luxo—era a única forma de aprender em casa, complementar aulas, tirar dúvidas.
Na escola de sua filha mais velha, Isabela (16 anos), as dificuldades se traduzem em números. A taxa de abandono na região subiu de 3,9% em 2022 para 4,2% em 2023, enquanto a média estadual permaneceu em 3,1%. Nem todos abandonam a escola, mas a evasão cresce justamente quando a estrutura educacional enfraquece.
Professores novos em desvantagem
Um fator pouco mencionado nas reportagens sobre o caso Belmonte é a divisão geracional que se aprofunda com a crise. Professores com menos de 35 anos—nascidos já na era digital—dependem muito mais das plataformas tecnológicas para sua prática pedagógica.
Bruno Costa, 29 anos, professor de português há 5 anos, nunca deu aula sem tecnologia educacional. "Eu preparo aulas interativas, uso vídeos, crio quizzes online. Meu método é totalmente diferente de um colega de 50 anos que usa livro e quadro-negro", explica. "Agora, sem as ferramentas, me sinto um professor do século passado. É demoralizador."
Bruno representa uma geração que escolheu a educação pública porque acreditava na inovação progressista que Belmonte prometia. A desilusão afeta não apenas seu trabalho, mas sua permanência na carreira. Ele já recebeu duas propostas para trabalhar em empresas de edtech. "Se a rede pública continuar desmontando essas estruturas, vou para a iniciativa privada. Não vou desperdiçar minha juventude lutando contra a máquina estatal."
O congelamento que paralisa escolas inteiras
Na Escola Estadual Zona Leste de Guarulhos, a diretora Helena Teixeira, 55 anos, enfrenta um problema que não aparece nos jornais: como funcionar com 287 escolas na região operando com ferramentas congeladas?
"Nós recebemos uma verba mínima para material de consumo. Quando precisamos comprar papel, tinta de impressora, desinfetante, os recursos já estão alocados", relata. "A paralização da plataforma nos custou aproximadamente R$ 14 mil em soluções alternativas paliativas. Dinheiro que não tínhamos e que saiu do orçamento de material didático."
Esse custo ripple—R$ 14 milhões estimados em toda a regional—não entra nas contas das investigações governamentais. Mas afeta a realidade de sala de aula: turmas menores porque professores saíram doentes, menos material pedagógico, despreparo para emergências educacionais.
O IDEB que caiu: consequência ou sintoma?
Um dos argumentos mais fortes contra Belmonte é que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) da sua regional caiu de 5,1 em 2019 para 4,8 em 2022. A acusação sugere que má gestão gerou maus resultados.
Mas a realidade é mais complexa. Em 2020-2021, estávamos em pandemia. Escolas fecharam. Alunos de famílias pobres—58% do alunado da região—foram ainda mais impactados por falta de internet. O IDEB de toda a rede pública paulista caiu. A queda regional foi, proporcionalmente, menor que em outras regiões com "gestões tradicionais".
Professora Maria da Silva, pesquisadora em educação na USP: "O IDEB é um indicador. Mas quando você tem 156 mil alunos, sendo 58% em situação de vulnerabilidade, fatores estruturais (pobreza, fome, ausência de pais que acompanham) têm peso muito maior que gestão administrativa."
Isso não desculpa irregularidades legais. Mas questiona se a queda educacional foi causa ou consequência da crise de gestão.
Quem sofre realmente quando a máquina pública falha
A verdade incômoda é que investigações, processos administrativos e congelamento de verbas têm vítimas reais. Não são conceitos abstratos de corrupção ou boa governança. São Mariana, que perdeu uma ferramenta de aprendizado. São Fernanda, que voltou a corrigir provas à mão. São Rogério, que não consegue pagar internet melhor. São Bruno, que questiona sua carreira.
E enquanto procuradores analisam documentos, enquanto políticos discutem responsabilidades e sindicatos defendem Belmonte, a educação de 156 mil pessoas segue paralizada em uma das regiões mais pobres da Grande São Paulo.
A questão que ninguém está respondendo claramente é: quanto tempo vai levar para descongelar esses recursos? Quanto dano pedagógico uma geração de alunos sofrerá enquanto investigações prosseguem? E quem vai reparar o impacto real quando—ou se—o caso for resolvido?
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