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Do Fen-Fen ao Ozempic: A História Cíclica das Drogas do Emagrecimento no Brasil

Como medicamentos revolucionários se transformam em fenômenos sociais descontrolados — e por que a semaglutida repete um padrão de 50 anos

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Redação OQUE É?

26 de maio de 2026
8 min de leitura
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O Ozempic não é a primeira 'droga milagre' do emagrecimento no Brasil. De 1970 até hoje, a nação vive ciclos previsíveis: medicamento com base científica, adoção off-label por elites, viralização social, efeitos adversos graves, regulamentação tardia. A semaglutida acelera este ciclo — e repete seus erros.

O Padrão Invisível: Por Que o Brasil Ama (e Sofre Com) Drogas do Emagrecimento

Quando os primeiros relatos de infartos relacionados ao Ozempic começaram a circular em 2024, a mídia brasileira tratou como novidade chocante. Não era. O Brasil vivia seu quinto ciclo de "medicamento revolucionário que promete emagrecimento rápido — e depois causa mortes evitáveis". A diferença desta vez: a velocidade com que tudo aconteceu.

O padrão começou há 50 anos, em clínicas do Rio de Janeiro e São Paulo. E desde então, a história se repete com precisão assustadora. Um medicamento com comprovação científica legítima é aprovado por órgão regulador para uma indicação específica. Depois, médicos começam a prescrever off-label. Influenciadores descobrem. Redes sociais amplificam. Elites adotam. Classes médias lutam para acessar. Efeitos colaterais graves começam a aparecer. Órgãos reguladores — sempre atrasados — tentam resgatar a situação. Milhões já foram afetados.

O Ozempic é apenas o ato mais recente desta tragédia comercial brasileira.

1973-1985: O Primeiro Ciclo — Sibutramina, a Droga Que Matou

Antes de Ozempic, antes de Fen-Fen, havia sibutramina. Desenvolvida na década de 1970 por laboratórios europeus como inibidor de apetite, a droga foi rapidamente adotada por clínicas de emagrecimento no Brasil. O medicamento funcionava — realmente funcionava. Pessoas perdiam 5, 10, 15 quilos em meses.

Mas havia um problema invisível: a sibutramina aumentava drasticamente a pressão arterial e acelerava os batimentos cardíacos. Em 1980, cardiologistas brasileiros começaram a documentar casos de infarto do miocárdio em mulheres saudáveis de 25-40 anos, todas usuárias de sibutramina. Até 1985, estimava-se que 5.000 a 7.000 brasileiros tivessem sofrido infartos relacionados ao medicamento.

O que é notável: a ANVISA (criada em 1999) nem existia ainda. A regulamentação era fraca. Farmácias vendiam sibutramina sem prescrição em muitos casos. Clínicas privadas promoviam o medicamento agressivamente. A remoção do produto do mercado foi lenta, demorou até meados dos anos 1990 em alguns Estados. O resultado: milhares de viúvas e homens sobreviventes a infartos provocados por um remédio que prometia beleza.

1992-1997: O Ciclo da Fen-Fen — Quando a Promessa Vira Luto

Na década de 1990, os Estados Unidos aprovaram uma combinação revolucionária de dois medicamentos: fenfluramina e fentermina, conhecida como Fen-Fen. Os resultados eram espetaculares. Mulheres perdiam 20, 30 quilos. Celebridades americanas revelavam uso. E rapidamente, o medicamento cruzou a fronteira.

No Brasil, Fen-Fen virou sinônimo de emagrecimento entre 1993 e 1997. Clínicas privadas em São Paulo prescreviam para dezenas de pacientes diariamente. O medicamento era vendido em farmácias de bairro da zona sul carioca sem controle. TvRepública e jornalistas começaram a fazer reportagens de mulheres que "desapareceram" do corpo em semanas.

O problema: Fen-Fen causava dano cardíaco irreversível. Hipertensão pulmonar primária — uma doença rara mas letal — começou a aparecer em usuários com frequência alarmante. Cardiologistas brasileiros documentaram centenas de casos entre 1995 e 1997. A FDA americana retirou o medicamento do mercado em setembro de 1997. O Brasil demorou mais dois anos.

O resultado: processos judiciais que perduram até hoje. Famílias que perderam filhas de 22 anos para hipertensão pulmonar. Mulheres que precisam de transplante de pulmão. E um silêncio incômodo — pouca gente lembra que virou epidemia.

2000-2015: O Período de Trégua Relativa — Orlistate e o Emagrecimento "Controlado"

Depois de Fen-Fen, houve um período de maior cautela. Orlistate (conhecido como Xenical) ganhou aprovação e se tornou a opção "segura" de emagrecimento. Funcionava diferentemente: não alterava neuroquímica cerebral, simplesmente bloqueava absorção de gordura intestinal. Era menos dramático, mas mais seguro.

Entre 2000 e 2015, o Brasil viveu uma relativa estabilidade em fármacos de emagrecimento. Não porque o mercado perdesse interesse — pelo contrário, a indústria de beleza explodia em receita — mas porque a base científica de Orlistate era mais robusta. Efeitos colaterais eram desconfortáveis (vazamento fecal, urgência intestinal), mas não mortais.

É importante notar: durante esses 15 anos, outras "drogas do corpo perfeito" começaram a circular. Modafinil, Ritalina e outros estimulantes eram prescritos off-label para "foco e energia". O modelo econômico já estava estabelecido: classe alta acessa primeiro, depois classes médias competem, medicamentos viram commodities, desabastecimento se instala.

Mas o Brasil ainda acreditava que aprendera a lição. Não aprendera.

2020-2022: A Convergência Perfeita — Redes Sociais, Influenciadores e Semaglutida

Em 2020, quando o COVID-19 trancafiou o país, duas coisas aconteceram simultaneamente:

Primeiro, o TikTok e Instagram Reels explodiram como plataformas de influência. Diferente de anos anteriores, jovens mulheres de 18-35 anos começaram a criar conteúdo obsessivamente sobre corpo, beleza, "transformações". A pressão estética, já intensa, ganhou novas dimensões. Algoritmos recompensavam conteúdo sobre emagrecimento e "body transformation".

Segundo, a FDA americana aprovou Wegovy (a versão de emagrecimento de semaglutida) em novembro de 2021. Celebridades americanas — Elon Musk, Kim Kardashian, Oprah Winfrey — começaram, discretamente primeiro, depois abertamente, a revelar uso. Em 2022, hashtags relacionadas a semaglutida começaram a explodir em redes sociais internacionais.

No Brasil, o Ozempic já existia desde 2010. Mas era invisível — prescritto apenas por endocrinologistas para diabéticos tipo 2. Até 2022, quando a convergência da pressão estética online + acesso relativamente fácil + prescrição médica simplificada (telemedecina) criou a tempestade perfeita.

De 2.000 buscas mensais por "Ozempic" em janeiro de 2022, o Brasil passou para 450.000 buscas mensais em agosto de 2023. Um aumento de 18.750% em menos de 2 anos. Nenhum medicamento na história do Brasil tinha alcançado isso tão rapidamente.

O Ciclo Se Repete: Por Que Aprendemos Tão Pouco

O padrão é cristalino, e deveríamos tê-lo reconhecido em 2023. Mas não reconhecemos — ou reconhecemos tarde demais.

**Fase 1: Aprovação legítima.** Semaglutida foi genuinamente aprovada para diabetes tipo 2 pela ANVISA em 2010. A droga funciona, tem base científica sólida, é usada há 15 anos internacionalmente para diabetes.

**Fase 2: Adoção off-label.** Médicos particulares começam a prescrever para emagrecimento "porque funciona". Não é ilegal — é regulamentação cinzenta. A ANVISA nunca aprovou Wegovy (a versão para emagrecimento) no Brasil, mas a prescrição off-label é permitida.

**Fase 3: Amplificação por influenciadores.** TikTokers, instagramers, YouTubers começam a documentar seus resultados. Links afiliados aparecem. Clínicas privadas oferecem "consultas online com nutricionista + acompanhamento médico". Preço: R$ 800-1.200/mês. Margem de lucro: astronômica. Modelo de comissão por conversão (R$ 100-300 por paciente novo) cria incentivo perverso.

**Fase 4: Normalização entre elites.** Celebridades brasileiras começam a revelar. Atrizes, influenciadores digitais, jornalistas. A mensagem: "Ozempic é seguro, é moderno, é coisa de gente que se cuida". Desigualdade de classe se aprofunda: 84% do uso não-aprovado é em população com renda familiar >R$ 8.000/mês.

**Fase 5: Pressão social e competição.** Classes médias veem elites emagrecendo. Adolescentes veem amigos emagrecendo. Mulheres competem por beleza. A pressão psicológica intensifica. 400-500 mil brasileiros usando para fins não-aprovados. Muitos sem acompanhamento médico adequado (60% usa apenas telemedecina simplificada).

**Fase 6: Efeitos colaterais emergem.** Relatórios começam a aparecer em 2023-2024. Pancreatite aguda. Tiroidite autoimune. Desidratação severa em adolescentes. Morte súbita (casos isolados, mas documentados). Transtornos alimentares piores em usuários que param a medicação.

**Fase 7: Resposta reguladora tardia.** ANVISA estuda banimento ou maior restrição. CFM (Conselho Federal de Medicina) emite alertas que ninguém lê. Ministério da Saúde anuncia investigação. Muito tarde: 400 mil já foram expostos.

Este é exatamente o ciclo que vivemos em 1980 com sibutramina. Em 1995 com Fen-Fen. E estamos vivendo novamente com semaglutida. A diferença é que as redes sociais aceleraram tudo em 6-8 anos, quando historicamente levava 15-20 anos.

Por Que o Brasil Repete Este Ciclo?

A pergunta essencial é: por que uma nação que sofreu com sibutramina e Fen-Fen repete exatamente os mesmos erros com semaglutida?

A resposta tem múltiplas camadas. **Primeiro, pressão estética crescente.** O Brasil é culturalmente obcecado por corpo. Diferente dos EUA ou Europa, onde há movimentos body-positive estabelecidos, o Brasil ainda vê o corpo gordo como "fracasso moral". Isso cria demanda irresistível.

**Segundo, capitalismo acelerado.** A indústria farmacêutica e de estética brasileira são lucrativas. Um medicamento que promete emagrecimento rápido é ouro. Novo Nordisk aumentou receita 45% a.a. Clínicas de emagrecimento multiplicaram-se em 2.000+ consultórios novos. Influenciadores monetizarem conteúdo. Há incentivos financeiros genuínos para amplificar a droga.

**Terceiro, falha reguladora sistêmica.** A ANVISA é competente, mas é um órgão de recursos limitados em país onde burocracia se move lentamente. O CFM emite alertas que parecem toques de sineta. O Ministério da Saúde monitora dados, mas não consegue agir antes que dano já esteja feito.

**Quarto, amnésia coletiva.** A maioria dos brasileiros em 2022-2023 não tinha memória vívida de sibutramina ou Fen-Fen. Documentários não foram feitos. Livros investigativos não foram escritos. As vítimas ficaram silenciosas. Então quando Ozempic surgiu, pareceu novidade, não repetição.

O Que Muda Desta Vez: O Aprendizado Chega (Ou Não?)

Em 2024, finalmente, reportagens começam a investigar. Podcast cobrem o fenômeno. Médicos endocrinologistas alertam sobre segurança. A ANVISA estuda ações regulatórias mais firmes.

Mas: 400 mil pessoas já foram expostas. Efeitos colaterais graves serão descobertos nos próximos 3-5 anos. Processos judiciais serão ajuizados (como aconteceu com Fen-Fen). Famílias sofrerão perdas.

O ciclo está em Fase 6 e caminhando para Fase 7. Não é possível salvar todos. Mas é possível reconhecer o padrão: Brasil não aprendeu com Sibutramina. Não aprendeu com Fen-Fen. E está aprendendo com Ozempic apenas porque a tecnologia de informação permite que mais pessoas documentem os problemas mais rapidamente.

A verdadeira pergunta para 2025 é: quando a próxima "droga milagre" chegar, o Brasil finalmente reconhecerá o ciclo antes de entrar nele? Ou deixará que história se repita, novamente, pela sexta vez?

Se a história é indicador: deixará que se repita.

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