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Ozempic explode no Brasil: medicamento para diabetes vira febre de emagrecimento e cria crise de desabastecimento

Vendas crescem 312% em dois anos, mercado movimenta R$ 2,8 bilhões, e pacientes diabéticos enfrentam falta do medicamento nas farmácias

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Redação OQUE É?

26 de maio de 2026
6 min de leitura
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O Ozempic, medicamento aprovado há 14 anos para diabetes, virou fenômeno social no Brasil a partir de 2023 após viralizar em redes sociais como solução para emagrecimento rápido. Com vendas que cresceram 312% desde 2022 e uso estimado de 400 a 500 mil brasileiros fora da indicação aprovada, a droga criou desabastecimento nas farmácias, divisão social entre ricos e pobres, e alertas de órgãos médicos sobre riscos de prescrição descontrolada.

Fenômeno que paralisa farmácias brasileiras

O Ozempic, medicamento injetável desenvolvido pela farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk, se tornou a droga mais procurada e controversa do Brasil em 2023. O que começou como prescrição legítima para pacientes diabéticos tipo 2 em 2010 evoluiu, nos últimos dois anos, para um fenômeno de massa impulsionado por redes sociais, influenciadores digitais e celebridades internacionais que revelaram uso para emagrecimento rápido.

Os números refletem a explosão: vendas cresceram 312% entre 2022 e 2024, passando de cerca de 300 mil unidades para 1,2 milhão de unidades dispensadas em 2023 apenas. O mercado movimentou R$ 2,8 bilhões no ano passado, um crescimento de 187% comparado a 2022. Em volume de buscas na internet, Ozempic passou de 2 mil buscas mensais em janeiro de 2022 para 450 mil em agosto de 2023 — crescimento de 18.750% em dois anos.

Todavia, essa explosão gerou uma crise: 67% das farmácias brasileiras relataram desabastecimento em 2023, impossibilitando pacientes diabéticos genuínos de obter o medicamento prescrito. No mercado negro, a caneta de injeção chegou a custar R$ 900 a R$ 1.200, enquanto o preço oficial gira em torno de R$ 280 a R$ 400. Pacientes com diabetes relatam meses de espera em filas de farmácias e SUS.

A viralização que mudou tudo

O fenômeno começou a ganhar força entre 2021 e 2022, quando celebridades internacionais como Elon Musk, Kim Kardashian, Oprah Winfrey e Trevor Sands (ator de Hollywood) revelaram publicamente que usavam semaglutida — o princípio ativo do Ozempic — para perda de peso. Simultaneamente, a FDA norte-americana aprovou a Wegovy, versão específica do medicamento para emagrecimento, em novembro de 2021.

No Brasil, médicos particulares começaram a prescrever Ozempic "off-label" (fora da indicação aprovada pela ANVISA) por volta de 2022. Mas foi em 2023 que o medicamento explodiu em relevância nas redes sociais. TikTok registrou 8,7 bilhões de visualizações em vídeos com hashtags relacionadas a #Ozempic e #Semaglutida. Instagram Reels multiplicaram conteúdos de "transformações corporais". Grupos de WhatsApp de mulheres da classe média-alta começaram a compartilhar nomes de médicos, dicas de "dosagem segura" e relatos de resultados: perda de 10 a 15 quilogramas em três meses.

A normalização foi fulminante. De medicamento para doença crônica para "biohacking" de beleza em questão de meses. Influenciadores digitais monetizavam conteúdo com links afiliados e códigos de desconto para clínicas especializadas em emagrecimento. Alguns relataram ganhar R$ 100 a R$ 300 de comissão por cada novo paciente indicado. Nutricionistas particulares viram demanda explodir: consultas que custavam R$ 200 a R$ 300 saltaram para R$ 500 a R$ 800. Médicos telemonitoradores faturavam milhões com consultas remotas simplificadas apenas para prescrever a droga.

O boom econômico e a divisão de classes

O mercado privado de semaglutida movimentou aproximadamente R$ 3,4 bilhões em 2023 apenas com uso não-aprovado pela ANVISA. Terapias mensais em clínicas particulares custam entre R$ 800 e R$ 1.200, resultando em despesa anual de R$ 9.600 a R$ 14.400 por paciente.

A indústria em torno do Ozempic explodiu: estimam-se 2 mil consultórios novos especializados em "emagrecimento com semaglutida" abertos entre 2023 e 2024, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro e capitais. Novo Nordisk registrou crescimento de receita estimado em 45% ao ano no período. Indústrias inteiras foram afetadas: vendas de orlistate (medicamento anterior para obesidade) caíram 23%, e centros de fitness relataram redução de 12% em matrículas.

Mas o fenômeno também aprofundou desigualdades. Dados mostram que 84% do uso não-aprovado concentra-se em população com renda familiar mensal superior a R$ 8 mil. Mulheres representam 72% dos usuários — evidência de como a indústria de beleza capitaliza inseguranças específicas do corpo feminino. A faixa etária 25-45 anos é maioria (67% dos usuários), mas crescimento mais acelerado ocorre em jovens de 18-24 anos (que representavam apenas 3% do uso em 2022 e pularam para 15% em 2024).

Mentretanto, pacientes com diabetes tipo 2 de baixa renda enfrentam racionamento. O SUS distribui Ozempic apenas para diabetes, não para emagrecimento, e enfrenta dificuldades de abastecimento por causa da demanda privada descontrolada. Setores que dependiam de dietas e suplementação — como nutricionistas tradicionais e indústria de suplementos — perderam 15 mil empregos em 2023-2024.

Alertas médicos e riscos de prescrição descontrolada

O Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu alertas formais sobre prescrição off-label de semaglutida, destacando falta de estudos robustos específicos para emagrecimento. Dados internacionais indicam efeitos colaterais que variam de leve (náusea, diarreia) a grave: pancreatite, tiroidite autoimune, desidratação severa e morte súbita em casos isolados documentados.

Mas 60% dos usuários brasileiros utilizam telemedecina para obter prescrições — muitas vezes sem avaliação clínica presencial adequada, sem exames de sangue prévios e sem acompanhamento contínuo. Hospitais brasileiros reportaram aumento de 8 a 12% em internações por anorexia em 2023, parcialmente associado a uso mal conduzido de semaglutida combinado com restrição alimentar severa.

Outro problema: dependência. Estudos mostram que 89% dos usuários recuperam o peso perdido dentro de um a dois anos após interromper o uso. Relatos de pacientes descrevem ansiedade ao pensar em parar a medicação, com receio de "efeito rebote". Psicólogos e psiquiatras brasileiros reportam aumento de demanda por atendimento relacionado a imagem corporal e transtornos alimentares.

A ANVISA e o vazio regulatório

A ANVISA aprovou Ozempic para diabetes tipo 2 em 2010, mas nunca aprovou Wegovy (versão para emagrecimento) no Brasil. Isso criou um vazio regulatório onde prescrição off-label ocorre sem controle específico. Enquanto agências internacionais como FDA e EMA possuem diretrizes claras para emagrecimento, a ANVISA permanece silenciosa sobre o uso desaprovado.

Fontes de órgãos reguladores brasileiros indicam que aprovação de Wegovy pode levar a maior controle, ou pode legitimar e expandir ainda mais o mercado. A expectativa no setor é que ANVISA tome posição em 2024-2025 após pressão de entidades médicas e de saúde pública.

Mentretanto, Novo Nordisk anunciou expansão de produção de semaglutida global para "atender à demanda crescente", mas ressaltou em comunicados que medicamento deve ser prescrito apenas conforme indicação aprovada em cada país.

Precedentes históricos e padrão reconhecível

Este fenômeno não é isolado na história médica brasileira. Segue padrão repetido: medicamento com comprovação científica real, adotado off-label por elites, viraliza, causa efeitos adversos, depois vem regulamentação.

Anos 1970-80: Sibutramina virou "droga do emagrecimento", causando 5 mil infartos antes de ser banida. Anos 1990: Fen-Fen (combinação de fármacos) matou centenas de usuários, resultando em processos judiciais massivos. Anos 2000-10: Orlistate teve ciclos similares. 2015-2020: Boom de "smart drugs" e "nootropics" (modafinil, ritalina off-label) em populações jovens.

Semaglutida segue exatamente esse trajeto, mas em velocidade acelerada — o que levou 15-20 anos em ciclos anteriores ocorreu em seis anos desta vez, impulsionado pela viralização em redes sociais.

O que vem a seguir

Especialistas apontam cenários possíveis: aprovação regulatória de Wegovy em 2024-2025, o que poderia controlar mercado; expansão descontrolada se pressão comercial vencer preocupações médicas; ou reação similar a sibutramina e Fen-Fen com banimento posterior — após danos documentados.

O que é certo: Ozempic transformou discussão sobre obesidade, beleza e acesso à saúde no Brasil. Deixou evidente divisões de classe, gênero e de acesso. E evidencia como medicamentos legítimos podem ser capturados por lógicas de mercado quando regulação falha.

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