De Gigante Invencível a Encruzilhada: Como a LATAM Caiu de 97 Anos de Domínio para a Maior Crise de Sua História
A trajetória da companhia que revolucionou a aviação brasileira e agora demite 2.800 funcionários revela como crises globais, decisões estratégicas e vulnerabilidades macroeconômicas derrubaram um império
Redação OQUE É?

A LATAM Airlines Brasil enfrenta sua pior crise em quase um século de história. De uma fusão que prometia criar a maior aérea da América Latina à beira de novo colapso, a trajetória da companhia revela como sucessivas ondas de choque—recessão, pandemia, inflação e volatilidade cambial—derrubaram um gigante que parecia inquebrável.
Quando Voar Era Privilégio: A Era Dourada da TAM e LAN (1927-2012)
Em 1927, quando a aviatrix francesa Aline Dieudonné abriu as primeiras rotas aéreas comerciais do Brasil, poucas pessoas imaginavam que estavam lançando uma empresa que duraria quase um século. A TAM—Transportes Aéreos Marítimos—nasceu modesta, conectando São Paulo ao Rio em voos que custavam fortunas. No mesmo ano, a chilena LAN (Línea Aérea Nacional) iniciava operações na América do Sul com ambições similares.
Por sete décadas, essas duas companhias reinaram praticamente sem desafios. A aviação era luxo, restrita a executivos, diplomatas e turistas ricos. A TAM criou uma mística—voar era sinônimo de status, modernidade, desenvolvimento. Os pilotos da companhia eram heróis nacionais; as aeromoças, símbolos de elegância. O Brasil se orgulhava: tínhamos uma das maiores aéreas do continente.
Na década de 1960, quando o Brasil se vangloriava de construir Brasília e a indústria automóvel decolava, a TAM expandia suas rotas como emblema de progresso. A fusão com a LAN (concluída em 2012, após anos de negociações) não foi apenas um casamento corporativo—foi apresentada como a criação de um gigante global, capaz de competir com American Airlines, Lufthansa, British Airways.
Ninguém esperava que menos de 15 anos depois, essa empresa estaria demitindo 20% de seus funcionários brasileiros e descontinuando rotas que havia operado por décadas.
2012-2015: O Casamento que Começou com Esperança
Quando a fusão TAM-LAN foi anunciada em 2012, os analistas previam uma sinergia poderosa. A nova LATAM Airlines Group seria a maior aérea da América Latina e uma das 10 maiores do mundo. Os números pareciam irrefutáveis: frota integrada de mais de 300 aeronaves, operações em 23 países, receita anual superior a US$ 12 bilhões.
Por um momento breve—entre 2013 e 2014—a empresa realmente prosperou. A economia brasileira ainda crescia (embora desacelerada); o turismo internacional florescia; a classe média expandida de Lula viajava mais. A LATAM era a escolha obvia, praticamente a única opção em muitas rotas domésticas. Seu market share tocava 55% do mercado brasileiro.
Os executivos da época—como Jarbas Feijó e Eduardo Salgado—apostavam em crescimento continuado. A integração operacional prosseguia: unificação de frota, harmonização de sistemas, eliminação de duplicidades. Tudo conforme o playbook corporativo dos anos 2000.
Mas a economia brasileira começava a dar sinais de fadiga. A Petrobras enfrentava crises internas; a corrupção do pré-sal emergia; a inflação acelerava. Ninguém ainda falava em recessão, mas as sementes já estavam plantadas.
2015-2017: O Primeiro Choque—Quando a Realidade Bateu à Porta
O preço do petróleo caiu de US$ 100 o barril para menos de US$ 30 entre 2014 e 2016. Para uma companhia aérea, isso é um termômetro crítico: kerosene de aviação (que representa 30-35% dos custos) explodiu em volatilidade.
Ao mesmo tempo, a recessão brasileira 2015-2016 foi devastadora. O PIB encolheu 3,5%; o desemprego saltou de 5,2% para 11%; a confiança do consumidor desabou. As pessoas pararam de voar. A demanda por passagens domésticas caiu 15% em um ano.
A LATAM, estruturada para crescimento, agora enfrentava um dilema: seus custos fixos (folha de pagamento, manutenção de aeronaves, aluguel de slots em aeroportos) permaneciam altíssimos, mas a receita caía em queda livre. Pela primeira vez desde a fusão, a companhia reportou prejuízos significativos.
Competidores menores como Gol e Azul, com estruturas mais enxutas e frotas menos pesadas, sofreram menos. A LATAM, gigante demais para reagir rápido, começava a mostrar seus primeiros sinais de fragilidade. Os executivos prometeram ajustes; os acionistas exigiam ações drásticas; os sindicatos pressionavam para manter empregos.
Este período—2015-2017—foi quando o paradigma de crescimento infinito se quebrou. A companhia nunca mais voltaria aos lucros robustos do período pré-recessão.
2018-2019: Recuperação Ilusória
Com a eleição de Bolsonaro em 2018, houve otimismo momentâneo. Os economistas liberais prometiam reformas; Guedes assumia a economia sob promessas de crescimento. A LATAM, recuperando-se parcialmente, expandiu operações em rotas internacionais (especialmente Miami e outros hubs americanos) onde as margens eram melhores.
Mas era maquiagem. Internamente, a companhia enfrentava pressões estruturais invisíveis ao público:
**Custos de pessoal**: Pilotos da LATAM ganhavam 40-50% a mais que em companhias concorrentes. A TAM tinha uma histórica cultura de remuneração elevada (herança de seu período monopolista). Ao integrar-se à LAN, a empresa manteve essas estruturas salariais inchadas. Negociações coletivas de 2017 e 2019 congelaram salários nominais, mas benefícios e adicionais tornavam a folha insustentável.
**Dependência do dólar**: 60% dos custos da LATAM eram internacionalizados (combustível, leasing de aeronaves, juros da dívida em dólar). A depreciação do real de 2015-2018 já havia impactado a companhia; entre 2018 e 2019, houve recuperação parcial do real, mas vulnerabilidade permanecia.
**Aeronaves envelhecidas**: Muitos Boeing 767 e Airbus A320 operados pela LATAM estavam próximos do final de vida útil. A companhia precisava investir em renovação de frota, algo custoso em momento de margens comprimidas.
2020: O Colapso Total
Março de 2020. COVID-19 anunciou seu chegada ao Brasil. A LATAM, como toda a indústria aérea global, enfrentou o pior mês de sua história. De um dia para o outro, a demanda de passagens caiu 90%. Aeronaves ficaram paradas; receita desapareceu; custos fixos continuaram.
Em maio de 2020, a LATAM Airlines Group (não apenas o Brasil, mas toda a companhia) pediu proteção contra falência nos EUA sob a Chapter 11—a mesma rota que grandes aéreas americanas como United e Delta percorreram.
A pandemia funcionou como uma lente de aumento das fragilidades estruturais já existentes. Uma companhia menor e mais eficiente teria resistido melhor. A LATAM, com sua estrutura pesada herdada de décadas de monopólio, desabou.
Pelo próximo ano e meio, negociações ferozes prosseguiram: credores, sindicatos, governo americano, agências brasileiras todas envolvidas. A companhia teve que renegociar dívida, reduzir frota, cortar custos em todos os níveis. Milhares de funcionários foram demitidos (não apenas no Brasil, mas globalmente).
Mas havia um detalhe importante: o Brasil era a operação mais rentável da LATAM. O mercado doméstico, mesmo em crise, mantinha demanda. Se a companhia saísse da falência, ela poderia reconstruir-se usando o Brasil como base.
2021-2022: A Falsa Aurora
Em 2021, a LATAM saiu da Chapter 11. A recuperação econômica pós-pandemia (ainda que desigual) trouxe otimismo. As pessoas voltaram a viajar; a demanda de passagens disparou; as tarifas explodiram para cima.
Por um breve momento—meados de 2021 a meados de 2022—pareceu que a LATAM haveria encontrado salvação. A companhia retornou ao lucro, alimentada por pent-up demand (demanda reprimida) e preços elevados.
O novo CEO, Ramiro Alfonsín (ex-Avianca), assumiu com otimismo. Ele prometeu reconstruir; recomporou executivos; anunciou investimentos em renovação de frota. A imprensa especializada elogiava sua visão.
Mas novamente, era ilusório. Três problemas estruturais ressurgiram com força:
**Inflação pós-pandêmica**: Desde 2021-2022, a inflação global disparou. Para a aviação, significava custos astronômicos de combustível, peças de reposição, pessoal. O Brasil foi especialmente afetado: inflação de dois dígitos entre 2021-2023.
**Depreciação do real**: A partir de 2021, o real iniciou trajetória de depreciação continuada. De 5,2 reais por dólar em 2021, passou para 5,9 em 2023 e 6,0+ em 2024. Para uma companhia com 60% de custos em dólar, isso era catástrofe silenciosa.
**Retorno da concorrência**: Gol e Azul, que haviam reduzido operações durante a pandemia, agora se expandiam agressivamente. Compravam aeronaves novas; expandiam rotas; conquistavam preços. A LATAM, presa a custos elevados herdados de sua estrutura monopolista, não conseguia competir em preços nas rotas de massa.
2023-2024: O Fim da Ilusão e o Retorno da Recessão
Em 2023, os números da LATAM Brasil revelaram a verdade: prejuízos de R$ 2,1 bilhões. Margem operacional negativa de -8,5%. A companhia queimava caixa mês a mês.
Com a inflação brasileira ainda acima de 4%, o IPCA corroia receitas; com o dólar em alta persistente, os custos dolorizados explodiram. Não havia saída fácil.
Os acionistas exigiam ação. O fundo soberano chileno Larraín Vial (maior acionista com ~25%), o China Development Bank (credor significativo) e outros pressionavam por reestruturação radical.
Em setembro de 2024, a LATAM anunciou o inevitável: demissão de 2.800 funcionários (20% do Brasil), descontinuação de 15 rotas domésticas, aposentadoria de 12 aeronaves, consolidação de operações em poucos hubs.
A Lição Histórica: Por Que Gigantes Caem
A queda da LATAM não é acidental ou imprevisível. É, na verdade, a repetição de um padrão histórico bem documentado: quando empresas dominantes enfrentam perturbações estruturais, sua própria escala e estrutura herdada viram desvantagens.
A TAM original enfrentou crise similar em 2001-2003 (pós-11/09 e crise argentina) e demitiu 3.500 pessoas. Mas conseguiu se reconstruir em 5 anos porque o Brasil não tinha recessão simultânea.
Agora, a LATAM enfrenta crise multiplicada: inflação, câmbio adverso, concorrência acirrada, demanda fraca, custos de pessoal inflexíveis, dívida elevada em dólar.
A questão agora é: conseguirá se recuperar novamente? Ou estamos assistindo ao declínio irreversível de um gigante que, por quase um século, dominou os céus brasileiros?
O futuro ainda é incerto. Mas a história sugere que empresas que não mudam estruturalmente não sobrevivem. E a LATAM, descendente direta da TAM que nasceu em 1927, está correndo contra o relógio.
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*Esta é a primeira de uma série sobre a crise da LATAM Airlines Brasil. Os próximos artigos analisarão o impacto humano nas famílias demitidas, as implicações econômicas regionais e os cenários possíveis para o futuro da companhia.*
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