LATAM demite 2.800 brasileiros e abandona 15 rotas: a maior reestruturação aérea do país desde a pandemia
Maior companhia aérea do Brasil enfrenta crise sem precedentes com cortes massivos de pessoal, redução operacional e impacto direto em 8 mil empregos indiretos
Redação OQUE É?

A LATAM Airlines Brasil anunciou em setembro de 2024 o corte de 2.800 postos de trabalho (20% de seu quadro) e a descontinuação de 15 rotas domésticas, marcando a maior reestruturação operacional do país desde a pandemia de COVID-19. A medida afeta diretamente trabalhadores em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Manaus, além de comprometer conectividade aérea em cidades médias.
LATAM Anuncia Corte de 2.800 Empregos e Abandona Rotas Domésticas
A LATAM Airlines Brasil, maior companhia aérea do país em capacidade operacional, anunciou em setembro de 2024 uma reestruturação drástica que inclui demissão de 2.800 profissionais, representando aproximadamente 20% de seu quadro operacional na região. A decisão, comunicada pelo CEO Ramiro Alfonsín e pelo presidente da operação brasileira Roberto Alvo, marca o segundo grande movimento de contenção de custos da empresa desde sua saída da proteção contra falência nos EUA em 2022.
A reestruturação inclui também a descontinuação de 15 rotas domésticas de baixa rentabilidade, redução de 30% de frequências em determinados trajetos e a aposentadoria de 12 aeronaves (Boeing 767 e Airbus A320). A empresa justifica as medidas como necessárias para viabilizar sua operação em um cenário de custos elevados, volatilidade cambial e pressão competitiva das companhias low-cost Gol e Azul.
Os Números da Crise: Prejuízos de R$ 2,1 Bilhões em 2023
Os números revelam a profundidade da crise enfrentada pela LATAM Brasil. Em 2023, a operação brasileira da companhia registrou prejuízos de R$ 2,1 bilhões, com margem operacional negativa de 8,5%. A empresa ainda carrega dívida consolidada do grupo LATAM de US$ 9,2 bilhões (aproximadamente R$ 46 bilhões), resultado da reestruturação pós-falência de 2020-2022.
O transporte de 48,2 milhões de passageiros em 2023 não foi suficiente para gerar lucro. Com 35% de participação de mercado no Brasil, a LATAM enfrenta custos estruturalmente inviáveis. O combustível representa 32% dos custos operacionais, tornando a empresa extremamente vulnerável à volatilidade do dólar. Cada depreciação de 10% do real impacta em adição de aproximadamente R$ 180 milhões nos custos anuais. A folha de pessoal consume 24% dos custos operacionais, percentual significativamente superior ao de concorrentes internacionais.
Quem Perde: Os Trabalhadores na Mira dos Cortes
Os 2.800 demitidos incluem profissionais de diversas categorias, cada uma enfrentando realidades distintas no mercado de trabalho. Pilotos, que ganham em média R$ 35 mil mensais, possuem maior capacidade de recolocação em companhias internacionais. Comissários de bordo, com salários médios de R$ 6.500, e técnicos de manutenção (R$ 8.200) enfrentam dificuldades maiores, especialmente profissionais acima de 40 anos.
Agentes de ground handling (R$ 2.800/mês) e colaboradores administrativos (R$ 4.500/mês) formam a maior parte do desemprego estrutural. Porém, o impacto não se restringe aos demitidos diretos. Estimativas conservadoras indicam que 8 mil empregos indiretos serão afetados: restaurantes em aeroportos, lojas duty-free, serviços de limpeza, manutenção terceirizada e logística.
O impacto geográfico é desigual. São Paulo concentra 45% dos demitidos, Rio de Janeiro 15%, enquanto Brasília, Recife e Salvador sofrem 5% cada. Manaus enfrenta perda de 120 postos de trabalho diretos, representando 22% da operação local da companhia.
A Trajetória até o Colapso: De Monopólio a Reestruturação
A LATAM Brasil é resultado da fusão de duas gigantes históricas concluída em 2012: a TAM (Transportes Aéreos Marítimos), fundada em 1927, e a LAN (Línea Aérea Nacional), chilena, fundada em 1929. Por décadas, estas duas companhias dominaram o mercado brasileiro praticamente sem competição. Porém, a história recente revela sucessivas crises que erodiam a viabilidade:
A crise do petróleo de 2015-2016 elevou custos de combustível. A recessão econômica de 2016-2017 comprimiu demanda. O impeachment de Dilma em 2016 criou instabilidade institucional. A ascensão das companhias low-cost Gol e Azul fragmentou o mercado de rotas domésticas. A pandemia de COVID-19 em 2020 provocou queda de 90% de demanda no pior mês, forçando a companhia a recorrer ao Chapter 11 (proteção contra falência) em maio de 2020.
Embora tenha saído da falência em 2021 com reestruturação de dívida, a LATAM não recuperou competitividade. A inflação pós-pandêmica, a depreciação do real e o aumento exponencial de custos de pessoal tornaram a operação insustentável. Em 2023, os prejuízos retornaram com força.
A Resposta Sindical e Política: Pressão por Proteção Social
A reestruturação enfrenta resistência organizada de sindicatos. O Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), que representa 2.200 pilotos, e o Sindicato dos Aeroviários (SINDAV), com 4.100 membros entre comissários e tripulação de cabine, negociam proteções para seus filiados.
O Ministério do Trabalho e Emprego fiscaliza os processos de demissão para garantir conformidade legal. A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), reguladora do setor, discute com a companhia a manutenção de rotas consideradas socialmente relevantes, como conexões para cidades menores e regiões de turismo.
Parlamentares de oposição, especialmente do PT, criticam a reestruturação como sacrifício social injustificado. Argumentam que a LATAM recebeu incentivos fiscais do governo federal (suspensão de impostos até 2024) e que executivos mantêm remuneração elevada—o CEO Ramiro Alfonsín ganha aproximadamente R$ 1,2 milhão mensais—enquanto a base de trabalhadores é eliminada.
Impacto Econômico: Quem Ganha e Quem Perde
As companhias concorrentes Gol e Azul ganham market share nas rotas abandonadas pela LATAM. A Gol, que já havia recebido linha de crédito BNDES de R$ 500 milhões, posiciona-se para absorver passageiros de rotas de maior rentabilidade. Aeroportos secundários, paradoxalmente, enfrentam redução de congestionamento, mas também menor receita operacional.
Cidades dependentes de conectividade aérea sofrem impacto macroeconômico. Brasília, Recife, Porto Alegre e Manaus enfrentam redução de conectividade com hubs, afetando redes empresariais e turismo. Considerando que o setor aéreo contribui 2,3% do PIB nacional, a contração de receitas na LATAM impacta tributos pagos (ICMS, ISS, PIS/COFINS) e pode contribuir para contração econômica localizada de 0,1% em cidades muito dependentes de turismo aéreo.
Perspectivas Futuras: Recuperação ou Venda?
O futuro da LATAM Brasil permanece incerto. A reestruturação visa reduzir custos fixos para tornar a operação viável em cenário de demanda reduzida. Porém, questões persistem: será suficiente? O maior acionista é o fundo soberano chileno Larraín Vial (aproximadamente 25%), com participação também da China Development Bank como credor significativo. Especulações sobre possível venda da operação brasileira circulam entre analistas.
A TAM original enfrentou crise similar em 2001-2003 após os atentados de 11 de setembro e a recessão argentina, demitindo 3.500 pessoas. Recuperou-se em aproximadamente 5 anos. A dúvida agora é se a LATAM, com dívida estruturalmente maior e cenário econômico mais desafiador, conseguirá trilho similar—ou se representa ponto de não-retorno para a maior companhia aérea brasileira.
Os próximos seis meses serão decisivos. Negociações com sindicatos continuam. A implementação das demissões prossegue. E o Brasil aguarda para ver se conseguirá manter sua conectividade aérea intacta ou se caminhará para concentração ainda maior de mercado nas mãos de duas ou três companhias.
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