Como a guerra entre Banco Central e Governo está esvaziando sua conta bancária
Juros em 10,5% e inflação disparada afetam desde o financiamento da casa até o preço da cesta básica
Redação OQUE É?
Enquanto Roberto Campos Neto e o governo federal se debatem sobre autonomia monetária, brasileiros comuns enfrentam contas mais caras, crédito mais difícil e alimentos mais caros. Entenda como essa crise institucional chegou até sua geladeira.
A conta chega todo mês: como os juros de 10,5% entram na sua vida
Marcos Silva, 34 anos, motorista de aplicativo em São Paulo, não entende economia. Mas sabe perfeitamente o que significa uma taxa Selic de 10,5% ao ano. Todo mês, quando chega a fatura do seu financiamento imobiliário, o número salta aos olhos: aumentou novamente. Em 2022, quando contraiu o empréstimo para comprar um apartamento no Itaquera, pagava R$ 1.200 de parcela. Hoje, três anos depois, aquela casa que custaria R$ 280 mil a mais para ser financiada. "Já pensei em desistir", confessa.
Marcos não é caso isolado. Ele representa 11,5 milhões de desempregados ou subempregados no Brasil que enfrentam o que chamam de "juros assassinos"—expressão que o presidente Lula popularizou em seus discursos contra o Banco Central. Mas enquanto políticos batem boca em Brasília sobre autonomia monetária, credibilidade e ortodoxia econômica, pessoas reais como Marcos veem suas vidas transformadas por decisões técnicas que parecem distantes, mas batem à porta todo mês.
A crise de confiança que eclodiu em outubro de 2024 entre o Banco Central e o governo federal não é apenas um embate burocrático. É uma tempestade que já está destruindo castelos de areia financeiros em toda parte do Brasil. E você pode não entender macroeconomia, mas sente no bolso.
O supermercado ficou mais caro: inflação acima da meta rói salários
Dona Maria, 67 anos, aposentada em Recife, faz compras duas vezes por semana no supermercado próximo a sua casa. Há três meses, começou a notar algo preocupante: o carrinho que costumava gastar R$ 180 agora custa R$ 220. Os mesmos produtos. Mesma quantidade.
Ela não está imaginando coisas. A inflação acumulada em 12 meses até novembro de 2024 chegou a 4,87%—bem acima da meta de 3% que o Banco Central deveria manter. Pior: alimentos em particular explodiram. Cenoura, tomate, arroz, feijão—tudo subiu 8,3% acima da inflação geral. Para uma mulher que vive com um salário mínimo de R$ 1.412 e dedica quase um terço de sua renda exclusivamente à alimentação, isso significa fazer escolhas cada vez mais difíceis.
"Tirei o leite do carrinho semana passada", conta ela com um sorriso que tenta disfarçar a preocupação. "Meu neto está sentindo." Dona Maria está entre os 49 milhões de brasileiros cuja renda mensal não chega a dois salários mínimos—pessoas para quem cada aumento de 10% no preço das coisas é uma crise real, não um número em um gráfico de economista.
A origem dessa inflação é exatamente o ponto que divide o Banco Central do governo. O BC, sob comando de Roberto Campos Neto, insiste que a única forma de controlar a inflação é mantendo juros altos. O governo federal, na voz do ministro Fernando Haddad, argumenta que a inflação é causada principalmente pelo câmbio fraco (que encarece importações) e pelo preço de alimentos (fenômeno global), não pela demanda aquecida. Portanto, segundo essa visão, juros elevados são desnecessários e prejudiciais.
Mas enquanto eles discutem a causa, Dona Maria continua escolhendo entre leite e cenoura.
O crédito evaporou: empresários pequenos enfrentam a porta fechada
João Carlos, 42 anos, é proprietário de uma pequena confecção no Bom Retiro, tradicional bairro têxtil de São Paulo. Há 18 anos ele trabalha naquele mesmo sobrado, com 12 funcionários costurando peças para lojas pequenas no interior. Seu negócio nunca foi grande, mas era estável. Até agora.
Em setembro, precisava de um empréstimo de R$ 50 mil para comprar máquinas novas e manter a produção em dia. Procurou seu banco. A resposta foi clara: linha de crédito para pessoa jurídica acima de 13% ao ano. Três anos atrás, conseguia empréstimo a 8%. Recusou. Sem investimento, mantém a confecção como está. Dois meses depois, pediu demissão a quatro funcionários.
João Carlos é parte de uma estatística assustadora: o crédito para pessoas jurídicas contraiu significativamente em 2024. O setor imobiliário, que dependia de financiamento para moradia, viu crédito habitacional cair 32% em volume. Micro e pequenas empresas, que geram 70% dos empregos no Brasil, viram portas se fecharem.
Esse efeito colateral da taxa Selic elevada (10,5% ao ano, caminhando para 12,5% em 2025 conforme previsões do mercado) cria um círculo vicioso invisível para quem não estuda economia. Juros altos → crédito mais caro → empresas deixam de investir → desemprego sobe → demanda por bens cai → inflação diminui (teoricamente) → mas pessoas perdem emprego no processo.
O Banco Central dirá que isso é necessário para evitar uma inflação crônica como na Argentina, que fechou 2024 com inflação acima de 250%. O governo dirá que é exagerado, que há outras formas. Joãozinho, que já mandou embora quatro funcionários, apenas sente o aperto.
O desemprego cresce: 10,9% e subindo na conta de quem procura trabalho
Taiana, 28 anos, formada em administração, está há nove meses procurando emprego em Belo Horizonte. Mandou 127 currículos desde que foi desligada de uma empresa de logística. Recebeu 11 respostas. Nenhuma com oferta concreta.
Ela conversa com amigos que estão em situação similar. Todos têm histórias parecidas: empresas contraem, não contratam, ou fazem seleções com dezenas de candidatos para uma vaga. A taxa de desemprego em outubro de 2024 era 10,9%, o que significa aproximadamente 11,5 milhões de pessoas sem trabalho formal.
Mas os números não capturam o peso psicológico dessa realidade. Taiana paga aluguel com sua poupança. Já entrou em dois ciclos de depressão ansiosa. Deixou de sair com amigas, economiza em alimentação (aumentada), e pensa diariamente se deveria voltar para a casa dos pais no interior.
A conexão entre juros altos e desemprego é real e documentada. Quando empresas enfrentam crédito mais caro e consumidores (como João Carlos e Taiana) deixam de gastar, as demissões vêm naturalmente. Não é sadomasoquismo corporativo—é resposta racional a um ambiente mais restritivo.
Os ganhadores silenciosos: bancos comemoram enquanto você perde
Enquanto Marcos, Dona Maria, João Carlos e Taiana enfrentam suas contas pessoais, há um grupo que celebra: as instituições financeiras. Com taxa Selic em 10,5%, os bancos ganham margens enormes na diferença entre o que pagam nos depósitos e o que cobram nos empréstimos.
Os lucros do setor bancário brasileiro bateram recordes em 2024. Investidores que têm dinheiro aplicado em fundos de renda fixa, títulos do Tesouro Direto ou até poupança tradicional viram suas aplicações renderem bem acima da inflação—se eles têm dinheiro para guardar, claro.
Mas essa é uma privilégio de classe: apenas 13% dos brasileiros têm acesso a investimentos financeiros. Os 87% restantes simplesmente sofrem com inflação alta e juro alto, sem poderem se proteger através de aplicações.
Há também credores externos do Brasil que celebram. Com real depreciado 18% em 12 meses (outro efeito da taxa Selic elevada, que afasta investimento estrangeiro), empresas brasileiras que têm dívidas em dólares veem o custo da dívida explodir. O governo federal, que é o maior devedor, viu gastos com juros da dívida pública atingir R$ 320 bilhões em 2024—dinheiro que poderia estar em educação, saúde ou infraestrutura, mas vai para banqueiros e investidores.
A questão que ninguém responde: quem decide o que importa mais?
Essa é a verdadeira crise por trás da crise de confiança entre BC e governo. Não é apenas questão técnica de quanto deve ser a taxa de juros. É questão fundamental: **quem decide o que importa mais no Brasil?**
O Banco Central, autonomia garantida por lei desde 2019, acredita que estabilidade de preços é sagrada. Sem controle de inflação, argumentam corretamente, economias entram em caos. A Argentina é exemplo perfeito: banco central subordinado ao governo, gasto público desenfreado, e resultado foi inflação galopante que destruiu a classe média.
Mas o governo, respondendo para uma população que sofre desemprego e alimentos caros, pergunta: qual a importância de uma inflação 1,87 ponto percentual acima da meta se 11,5 milhões de pessoas estão desempregadas?
Essa pergunta não tem resposta técnica. É escolha política e moral. E é sobre isso que deveria estar-se discutindo. Em vez disso, discute-se autonomia, independência, credibilidade internacional.
Mentanto, Marcos paga mais caro pela casa. Dona Maria escolhe entre leite e cenoura. João Carlos demite funcionários. Taiana não consegue emprego. E você, lendo isso, provavelmente identifica-se com ao menos uma dessas histórias.
A crise no Banco Central não é abstrata. Ela chegou na sua conta corrente.
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Redação OQUE É?
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